quarta-feira, novembro 15, 2006



"Desejaria rezar para sobreviver, mas sei que não basta fechar os olhos para fugir à própria tragédia. Afinal estou morto de mais para poder morrer, acreditei ter força suficiente para não me asfixiar, apenas pude suspirar quando quis soltar um grito. Morri no instante em que pensei ter começado a viver, porque não era possivel continuar vazio por dentro. Desconhecia (talvez) ter nascido para não viver, cortei-me e a felicidade foi a primeira coisa a sair de dentro de mim. Fiquei mais quente, sofrimento fisico em vez de espiritual. Incerteza ou alucinação? A verdade é que ontem tentei ficar mais puro, mas continuei sujo, a dor não me deixa existir dentro do sonho que criei.
...
Na mais profunda solidão espero ser livre, desesperado e abandonado choro, não tenho forças para lutar por muito mais tempo.
Tudo o que quero é atingir a minha apoteose final, alcançar o meu zénite, mas não sei se serei capaz, ignoro se morrerei pelo caminho.
Agradeço aos meus pais terem sabido tomar conta do meu corpo. A culpa de o detestar não é da sua responsabilidade. Tudo surgiu de repente.
...
Todas as manhãs sinto as veias dos braços a querer explodir, por isso me corto. Apesar da minha raiva continuo a ser ninguém. Caminho por entre sonhos e procuro a serenidade, busco a ilusão de que este momento vai passar e vou surgir de novo, no espelho, sem vergonha de mim.
Com os olhos vazios, passo algum tempo a sobrevoar o conhecimento da escuridão. Como uma criança nascida na chuva, condeno-me a ficar para sempre gelado por dentro.
...
Ouço-me mas não me escuto. Quero o isolamento, o medo da morte e a sua derrota, ao mesmo tempo o meu corpo e o meu espírito.
...
Um vento forte enche os meus olhos de um pó de destruição, podem estar certos de que não desistirei de me libertar desta decadência em que me encontro."

(in, Lições do Abismo;
Daniel Sampaio)